O reconhecimento oficial veio em 2018, quando o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) declarou a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Um título mais do que merecido para uma manifestação artística que traduz o imaginário coletivo, a memória social e o olhar crítico dos poetas sobre fatos reais ou imaginados.
Embora tenha se fortalecido no Norte e Nordeste, o cordel hoje está presente em diversas regiões do país, especialmente em estados como Paraíba, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo. A expansão ocorreu principalmente devido aos fluxos migratórios, que levaram essa tradição para centros urbanos e outras regiões brasileiras.
Origem da Literatura de Cordel: das cantigas medievais ao Nordeste brasileiro
A origem da Literatura de Cordel remonta ao Trovadorismo medieval português, por volta do século XII. Naquele período, trovadores percorriam vilas e feiras cantando histórias em versos rimados para uma população majoritariamente analfabeta. A oralidade era o principal meio de transmissão cultural.
Com a chegada da Renascença e a invenção da prensa mecânica, no século XV, a difusão da palavra escrita ganhou força. A impressão permitiu maior circulação de textos, e os folhetos passaram a ser vendidos pendurados em cordas — ou cordéis, como se diz em Portugal. Daí surge o nome que permanece até hoje.
No Brasil, o cordel chegou no século XVIII, trazido pelos colonizadores portugueses, fixando-se especialmente no Nordeste brasileiro, região que se tornou referência nacional do gênero. Aqui, a tradição ganhou novas temáticas e identidade própria, incorporando elementos do sertão, do folclore, da religiosidade e do cotidiano nordestino.
Como o cordel se popularizou no Brasil
A popularização do cordel ocorreu principalmente por meio dos repentistas e violeiros, artistas que cantavam histórias rimadas nas feiras livres e praças públicas. Essas apresentações funcionavam como uma espécie de “jornal falado”, levando informação e entretenimento à população rural.
Os primeiros folhetos de cordel coletados no Brasil datam de 1890, embora estudiosos apontem que a prática já estivesse presente desde a metade do século XIX. Um dos principais nomes desse período foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), natural de Pombal (PB), considerado o primeiro grande cordelista brasileiro. Ele escreveu cerca de 240 obras e ajudou a consolidar o gênero como forma de literatura popular.
Principais cordelistas brasileiros
- Patativa do Assaré (1909-2002) – Poeta cearense que retratou com sensibilidade a vida e as dores do sertanejo.
- João Martins de Athayde (1880-1959) – Importante autor e editor, fundamental na expansão do cordel no século XX.
- Silvino Pirauá de Lima (1848-1913) – Mestre da sextilha e do martelo agalopado, considerado precursor do gênero.
- Gonçalo Ferreira da Silva (1937-2022) – Fundador da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).
- Cego Aderaldo (1878-1967) – Repentista cearense famoso por suas pelejas poéticas.
- Firmino Teixeira do Amaral (1896-1945) – Autor da clássica “Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho”.
Principais características da Literatura de Cordel
A xilogravura é uma das marcas mais reconhecidas do cordel. A técnica consiste em esculpir imagens em madeira, formando uma espécie de carimbo que é prensado no papel. Essas ilustrações dão identidade visual aos folhetos e se tornaram símbolo da cultura nordestina.
Outras características importantes incluem:
- Uso de métrica e rima, geralmente em sextilhas;
- Linguagem simples e acessível;
- Forte presença da oralidade;
- Temas ligados aos costumes locais, religiosidade, humor, crítica social e acontecimentos históricos;
- Comercialização tradicional em feiras populares.
A formação do público do cordel está diretamente ligada às feiras agrícolas do Nordeste. Em um contexto onde o acesso à imprensa era limitado, os cordelistas desempenharam papel essencial na difusão de notícias, histórias e entretenimento.
Cordel na contemporaneidade: tradição e resistência cultural
Hoje, a Literatura de Cordel ultrapassa as feiras e ganha espaço em escolas, universidades, eventos culturais e plataformas digitais. O gênero se reinventa sem perder suas raízes, abordando temas contemporâneos como política, meio ambiente, tecnologia e direitos sociais.
O reconhecimento do IPHAN fortaleceu políticas de preservação e valorização dessa manifestação artística, garantindo visibilidade aos artistas que mantêm viva essa tradição.
Mais do que versos pendurados em barbantes, o cordel é memória, identidade e resistência cultural. É a voz do povo transformada em poesia, capaz de atravessar gerações sem perder sua essência.





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